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America Latina

VOLUMEN 7 - Nº 1
ENERO - JUNIO 1996
Ciencia y Universidad en América Latina (I)
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Influencia política alemã no Brasil na década
DE 1930*

RENÉ E. GERTZ
Pontifícia Universidade Católica do Rió Grande do Sul
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

A estratégia do governo Getúlio Vargas do Brasil na década de 1930/40 tem sido caracterizada como "jogo duplo" no que tange ccedil sua inserção no contexto político internacional1. A polarização entre Alemanha e Estados Unidos teria oportunizado ao Brasil barganhar com ambos os lados, obtendo assim uma certa autonomia na sua dependência histórica em relação a este último país2. Além da racionalidade maquiavélica subjacente na aproximação com a Alemanha, a intensificação das relações políticas e econômicas com este país derivaria de uma afinidade interna3. Desde 1930 registra-se, com avanços e recuos, uma tendência centralizadora no Brasil, que terá o seu desfecho na decretação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, e essa política centralizadora teria levado grande parte dos políticos brasileiros a simpatizar e se identificar com o regime alemão4.

É comum que autores se refiram a políticos e militares do período como "germanófilos" ou "filonazistas", tentando dessa forma descrever um clima profundamente receptivo ao nazismo no Brasil. E nessa perspectiva a população de origem alemã no país adquire um peso especial. A presença de aproximadamente um milhão de descendentes de alemães numa população total de cerca de 40 milhões de brasileiros costuma ser destacada como um fator de muita importãncia na suposta nazificação. Até hoje quando se trata do regime varguista entre 1930 e 1945, quase sem exceção são feitas referências ccedil presença de "alemães" e ccedil atividade do partido nazista dentro do Brasil. Uma edição recente da revista Veja -o mais importante semanário brasileiro da atualidade- comentando um projeto de publicação de um diário que Getúlio Vargas escreveu nas décadas de 1930/40 veio acompanhada de extenso material fotográfico e redacional sobre a nazificação das regiões de colonização alemã no sul do país5.

Contrapondo-me ccedil quase unanimidade observável na avaliação desse tema, tenho tentado argumentar que a presença de um significativo número de descendentes de alemães constitui antes um problema do que uma ajuda no aprofundamento das relações entre Brasil e Alemanha de 1933 a 1942, ano da ruptura definitiva e declaração de guerra entre os dois países6. Destaquei que há na postura das autoridades brasileiras um alto grau de ambivalência, pois se é verdade que no discurso político se encontram referências elogiosas e bajuladoras em relação ccedil população de origem alemã e aos alemães, é igualmente inegável a histórica insatisfação com a inserção político-cultural dos imigrantes e descendentes no contexto brasileiro, crítica que se acentua e aprofunda durante a década de 1930. A elite política brasileira classificada de "germanófla" e "flonazista" admirava certamente a estrutura do regime alemão, mas ao mesmo tempo estava profundamente desconfiada em relação aos "alemães" que viviam no Brasil7.

A ambivalência atingia, num outro patamar, pessoas que entraram para a História como grandes defensores de posições liberais. Quero ilustrar com o posicionamento do conhecido escrito Érico Veríssimo. Em abril de 1938 ele fez um discurso elogioso ao Estado Novo através da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Entre outros motivos para justificar o seu elogio ao regime de força implantado em novembro do ano anterior diz: "O tempo se encarregou de mostrar com fatos o perigo em que o Brasil se achava como objeto de cobiça de certas nações. Senti sempre a necessidade da nacionalização do ensino. Ela aí está"8. Como Érico Veríssimo vivia no Rio Grande do Sul e se desencadeara forte campanha de eliminação das escolas privadas, que atingia em especial as escolas das regiões de colonização alemã, não há dúvida de que o escritor estava-se referindo ccedil Alemanha como país que cobiçava o Brasil e o fazia através da população supostamente não nacionalizada de origem alemã. Transparece nessa manifestação uma clara ambivalência, mesmo que diferente daquela dos políticos "germanófilos": o liberal Érico Veríssimo apóia a ditadura varguista, porque ela salva o Brasil do "perigo alemão"9. Se nos Estados Unidos nesse mesmo momento se temia que com a decretação do Estado Novo se instaurara um regime totalitário e o Brasil caíra em definitivo nos braços da Alemanha, no Brasil se julgava que o Estado Novo salvara o país desse perigo. Visão que também fazia parte da auto-avaliação do próprio regime.

O que pretendo fazer no presente texto é retomar a problemática da presença de um significativo contingente de imigrantes alemães e descendentes no país para o relacionamento do Brasil com a Alemanha nazista e sobre o grau de influência do nazismo no país.

Desde 1824 estabeleceram-se alemães no Brasil, fazendo com que em estados como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina cerca de 20% da população fosse de origem alemã na década de 1930; em outros estados, como Paraná, São Paulo, Espírito Santo, esses percentagens eram menores, mas também significativos10. Nos demais estados havia grupos menores. A desconfiança em relação a essa população era histórica, como mostrei em O perigo alemão. As suspeitas tinham origem tanto fora quanto dentro do país. A imprensa internacional desde o século XIX apontava para o perigo. Em vários momentos do século passado e início do século XX, a imprensa francesa deu destaque ao assunto; nos anos 1930 os alertas vinham sobretudo da imprensa inglesa e americana.

Também aí -ao menos no que tange aos autores brasileiros- nota-se uma clara ambivalência. Não há como negar que a imigração alemã tem, em tese, apoio por parte da maioria dos autores que trataram do assunto. Os imigrantes centro-europeus, incluindo portanto os alemãs, são vistos com bons olhos no projeto de "branqueamento" ou de "arianização" da população brasileira11, pela sua ética de trabalho, enfim, pela sua contribuição para o desenvolvimento sócio-econmico do Brasil. Nesse sentido são vistos com muita mais simpatia do que os imigrantes de outras regiões ou de outra tradição étnica e cultural. Os alemães são vistos com bons olhos e recebem os elogios correspondentes, enquanto há sérias restrições a japoneses, "turcos", judeus, "polacos", sem falar nos negros.

Restrições se fazem ouvir, porém, com muita insistência em relação aos imigrantes alemães efetivamente entrados no Brasil bem como aos seus descendentes. O que se espera dos imigrantes é que -de preferência antes de entrarem no país- aprendam o português, abandonem toda a sua bagagem cultural e adotem instantaneamente hábitos de vestir, de comer, morar, ou de se associar "tipicamente brasileiros". Apesar de nunca expresso com sinceridade, esperava-se, no fundo, que os imigrantes luteranos abandonas- sem sua confissão religiosa e se tornassem católicos. Admitia-se que permanecessem eventualmente alguns traços biológicos. que no futuro se diluiriam na "raça brasileira", melhorando-a. Tenho mostrado que oficiais do exército brasileiro que na década de 1930 ocuparam regiões de colonização alemã no sul do Brasil ficaram indignados com o fato de que as pessoas mantinham os seus sobrenomes alemães e não os haviam trocado ou ao menos abrasileirado12.

Tomemos as duas etnias mais diretamente envolvidas no contexto da nossa análise: italianos e alemães. Mesmo que os italianos do sul do Brasil não se tenham envolvido em grandes movimentos reivindicatórios de caráter operário13, em São Paulo a etnia está presente em toda a estrutura social - desde a aristocracia até ao operário mais humilde-, com um correspondente leque de posicionamentos político-ideológicos: o movimento operário em São Paulo tem muito a ver com italianos e descendentes. No que tange aos alemães certamente não é de todo errado afirmar que predominaram posições conservadoras. Mesmo que a historiografia tenha até agora ignorado por completo a presença de alemães e descendentes em movimentos operários no Brasil, quando eles de fato estiveram presentes, não resta dúvida de que em termos de quantidade essa presença é pouco significativa em comparação com o número total de imigrantes e descendentes - ao menos até a Segunda Guerra. O destaque que merecem figuras como Frederico Kniestedt em Porto Alegre e Edgard Leuenroth em São Paulo deve-se antes ao seu valor pessoal do que ao número de operários que representavam14.

Se formos ler a imprensa de língua alemã da década de 1920, vamos constatar ali uma freqÜente insatisfação com a República de Weimar e um anseio conservador por mudanças. Tudo isso conduz ccedil pressuposição de que o nazismo deve ter sido recebido com entusiasmo pela população de origem alemã, sobretudo nas regiões de colonização alemã no sul do Brasil, onde supostamente a integração ccedil realidade brasileira era muito baixa. Mostrei em O fascismo no sul do Brasil que, de fato, é pouco significativa a crítica ao regime nazista instaurado na Alemanha e que, pelo contrário, se nota uma considerável simpatia pelo fato de que o regime teria consertado os erros imputados ao regime da República de Weimar15. Mostrei, porém, que isso em absoluto representou um entusiasmo irrestrito pelas atividades da Organiza- ção do Exterior do partido nazista. Essa atividade era, pelo contrário, muito criticada16. A recente tese de doutorado de JÜrgen MÜller reafirma, em termos gerais, os resultados de minhas pesquisas17.

Em termos resumidos pode-se dizer que mesmo antes da tomada do poder pelos nazistas na Alemanha foram criados alguns núcleos do partido no Brasil. Essa difusão de núcleos acentuou-se depois, mas não se pode dizer de forma alguma que tenha sido um estrondoso sucesso. Essa afirmação baseia- se, entre outros, no seguinte raciocínio: entre o final da Primeira Guerra e 1933 chegaram em torno de 80.000 alemães para o Brasil, constituindo- se esse período como o mais intensivo de imigração alemã para o país em toda a história da imigração18 alemães. Esses imigrantes constituíram um contingente muito diversificado: havia oficiais do exército, profissionais acadêmicos em geral, mas também camponeses e operários urbanos. Todos eles vinham em função dos problemas que a Alemanha enfrentou no pós-guerra. Em 1924 alguém -aparentemente por brincadeira - fixou alguns cartazes na cidade de Hagen, informando que ccedil hora do almoço de determinado dia em determinado local falaria um Sr. Langenbach sobre o tema "Quem quer ir junto para o Brasil?". Na hora indicada reuniram-se milhares de pessoas19. A integração daqueles que vieram parecia problemática. Um observador do Rio Grande do Sul escrevia em 1926 que, apesar de haver entre os imigrantes posteriores ccedil Primeira Guerra número grande de oficiais e de outras pessoas com formação acadêmica, os alemães vindos mais recentemente constituíam uma verdadeira "escória"20. Nesse mesmo ano a Deutsche Zeitung de São Paulo escreveu, ao comentar a imigração alemã mais recente ao Brasil: "Senhor, afasta essa benção de nós!"21. E ainda em 1932 podem ser encontrados comentários pouco elogiosos aos imigrantes pós-guerra: "Entre esses assim chamados `alemães novos' (Neudeutsche) existiram muito freqÜentemente elementos que trouxeram consigo o estremecimento psicoló- gico de sua pátria e pensavam poder justificar com isso muitas das irregularidades que praticavam"22.

Não parece errado pressupor que a grande maioria desses 80.000 imigrantes recentes constituíssem candidatos potenciais ao ingresso no partido nazista, pois recebiam na década de 1930 a informação de que a Alemanha estava-se reerguendo e que agora tinha condições de oferecer uma vida digna a todos os seus cidadãos. Ao contrário da expectativa, porém, apenas algo em torno de, no máximo, 3.100 alemães residentes no Brasil ingressaram no partido23. Isso representa aproximadamente 4% do contingente citado. Devemos lembrar, no entanto, que entre os que ingressaram no partido provavelmente se encontrava um número significativo que estava numa dependência económica direta em relação a empresas alemãs (da Alemanha) em atividade no Brasil, para os quais a adesão ao partido era quase uma obrigatoriedade. Apesar de que não constituíssem um número muito significativo no conjunto dos membros do partido, cabe destacar que os pastores luteranos que atuavam no Brasil estavam praticamente todos numa relação de dependência direta em relação ccedil igreja alemã24.

Certamente não é errado afirmar com base nesses dados que o sucesso do partido no Brasil ficou abaixo daquilo que poderia esperar-se, em tese. Também mostrei que houve uma oposição bastante generalizada ccedil atividade dos membros do partido nas comunidades de alemães e descendentes do sul do Brasil. A intromissão nas instituições e no cotidiano das regiões de colonização alemã - cabe destacar como exemplo os boicotes a empresas com as quais não simpatizavam - fez com que a reação negativa a eles fosse muito significativa. Negava-se a eles toda a reivindicação de assumir a liderança dessas comunidades.

Constitui evidentemente outro tema o posicionamento da população dessas comunidades em relação ccedil Alemanha, a Hitler e ao nazismo como regime em seu país de origem. Sem dúvida, é pouco freqÜente encontrar-se críticas ao nazismo como tal. De maneira geral nota-se, pelo contrário, uma significativa simpatia pelo regime em si e que se reflete de forma concreta sobre a ideologia e a prática daquilo que se denominava "germanismo" ou "teutobrasileirismo" (Deutschtum, Deutschbrasilianertum)25.

Desde o século XIX existiam instituições, como associações esportivas, culturais e económicas, que veiculavam a idéia de uma identidade teuto- brasileira. Essas instituições, que se viam pouco prestigiadas pela Alemanha da República de Weimar, começaram a sentir novo alento com o nazismo no poder e isso rendia simpatias ao regime.

Não podemos conjeturar hipoteticamente sobre o que teria acontecido se a Alemanha tivesse vencido a guerra, mas tenho fortes razes para dizer que nesse caso os nazistas teriam contado com a ajuda de grandes contingentes de brasileiros de origem não-alemã e não teriam dependido de alemães e descendentes para exercer o seu domínio sobre o país.

O que podemos estabelecer é aquilo que de fato aconteceu. Contrapondo- me mais uma vez claramente ccedils tendências dominantes na historiografia sobre a temática, julgo que ainda não foram apontados grandes perigos concretos a que o Brasil estivesse exposto por causa da presença de uma forte contingente de população de origem alemã. A tese levantada pela historiografia da República Democrática Alemã sobre as intenções de anexação do sul do Brasil ccedil Alemanha26 parece definitivamente superada, por não ter apresentado as evidências empíricas de suas conclusões -mesmo que ccedils vezes pareçam lógicas27. Mas mesmo que se aceite o potencial de dissenção interna que a atividade nazista pudesse causar, a realidade está - com as provas e fontes até agora encontradas -- muito aquém daquilo que se costuma supor em função do que se lia na imprensa da época ou que ainda continua sendo apregoado em escritos ensaísticos que repetem acriticamente o que está em qualquer fonte conhecida. Claro que devemos assumir o posicionamento humilde de aceitar a refutação dessa afirmação caso se encontrem fontes novas, mas até ao momento essas fontes não foram arroladas.

Os contemporãneos consideravam que a quase totalidade da população de origem alemã no Brasil estava sob o controle do nazismo e conspirava sistematicamente contra a integridade do país em que se encontrava28. COM exceções pouco numerosas, ainda não foi feita uma revisão dessa perspectiva, e ela continua sendo difundida como moeda corrente. As principais fontes documentais no que se refere ccedils atividades consideradas nazistas e antibrasileiras no sul do país são os relatórios das autoridades policiais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina29. Não há como negar que nesses volumes são publicadas evidências. E não se pode desconfiar da autenticidade do material. O que, no entanto, nunca foi feito é uma criteriosa avaliação do contexto e do significado real do material apresentado. Se formos investigar com objetividade e distanciamento os fatos apresentados, constataremos que algo em torno de 50% daquilo que é apresentado como atividade nazista antibrasileira aconteceu antes da decretação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937 e não constituía nesse momento nenhuma ilegalidade nem podia ser interpretado de forma alguma como oposição ao governo brasileiro. Quero ilustrar com as famosas fotografias de uma festividade nazista no campo de desportos do clube "Renner" em Porto Alegre. Essa festa efetivamente aconteceu no local indicado e as fotografias são autênticas e quando apresentadas sem uma contextualização sugerem uma perigosa ação contra a soberania brasileira. Não podemos, no entanto, esquecer que essa festa se realizou num período em que o partido nazista agia sem qualquer restrição por parte do governo brasileiro, que nessa festa esteve presente o Governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, o comandante da região militar do exército brasileiro e outras altas autoridades30. Se além dos nazistas uniformizados e seus símbolos conseguimos ver nas fotografias populares que acorreram ccedil festa, não podemos deduzir daí qualquer intenção antibrasileira por parte dessas pessoas. Se a festa fosse comunista, com o beneplácito oficial, certamente também teriam acorrido muitos populares.

Entre aqueles fatos arrolados pelas autoridades policiais que efetivamente ocorreram após a sua proibição ou ao menos após o início da campanha de "nacionalização" vamos encontrar poucos que podem ser classificados como antibrasileiros. Trata-se muitas vezes da não-observãncia da proibição de falar em alemão, da utilização de livros como a Bíblia ou hinários em alemão, em alguns casos editados muito antes de Hitler ter nascido.

Apenas parcela pequena constituem datos de desobediência civil, como a de alemães continuarem como membros da DAF (Deutsche Arbeitsfront). Pode- se, porém, lançar um desafio geral aos pesquisadores para que apontem qualquer ação coletiva de desobediência civil. Sempre se trata de ações individuais.

O folclore produzido na época se refere a bandos de "quinta- colunas" que teriam agido no sul do Brasil. Seriam alemães e descendentes que estariam exercendo funções de espionagem e sabotagem em favor da Alemanha. As pesquisas historiográficas mais consistentes realizadas até agora sobre a espionagem alemã no Brasil são as de Stanley Hilton31. Hilton demonstra de forma consistente a presença de um considerável número de espiões a serviço da Alemanha no Brasil. O que, porém, chama a atenção é que mesmo o espião que se apresenta a um rapaz do Rio de Janeiro para dividir uma moradia como sendo um teuto-brasileiro de Santa Catarina, de fato não o era32. Hilton não produziu nenhuma evidência de que a atividade de espionagem nazista tivesse qualquer apoio ou sustentação nas regiões de colonização alemã. Os espiões a serviço da Alemanha eram mais ou menos profissionais e não tinham nada a ver com a tradição imigrantista.

A problemática, no entanto, não pode ser dada como encerrada pelo que foi exposto até aqui. Tivemos atividade nazista através dos núcleos partidários dirigidos pela Organização do Exterior do partido alemão, tivemos um reavivamento do movimento germanista e uma simpatia inegavelmente difundida em relação ao nazismo como regime adequado ccedil Alemanha naquele momento (mesmo que se condenasse a prática partidária dentro do Brasil). Mas tivemos além de tudo isso um partido fascista brasileiro, a Ação Integralista Brasileira33, cujo relacionamento com o nazismo não pode deixar de ser considerado, sobretudo quando se está diante do fato objetivo de que o terceiro maior contingente desse partido em todo o Brasil se localizava em Santa Catarina, com as suas concentrações mais expressivas justamente nas regiões de colonização alemã nesse estado. Já fiz a crítica ccedil bibliografia sobre o relacionamento entre integralismo e nazismo e produzi uma explicação para o sucesso do primeiro em Santa Catarina34, mas julgo ser conveniente retomar alguns aspectos. Parece que há uma tendência irreversível na historiografia de não se deixar guiar pelas fontes, mas por convicções pessoais preconcebidas. Ninguém de nós discordaria de uma proposição genérica de que nazismo e integralismo são manifestações de um mesmo mal, que se equivalem na condenação que merecem de parte de qualquer consciência democrática e que nesse sentido são irmãos siameses. Se, porém, queremos ir um pouco além desse posicionamento ético- político e precisar com maior rigor científico as relações entre os dois partidos, há necessidade de se cuidar para que não se abandone levianamente um mínimo de objetividade e distanciamento, tornando supérfluo qualquer investimento na pesquisa de fontes.

Em um livro sobre o Brasil publicado em 1987 o professor Mário Contreras, da Universidade Autônoma do México, apresenta um capítulo intitulado "El Brasil como meta histórica de la Alemania nazi", no qual aparenta dar seriedade ccedil defesa da tese usual de que o integralismo foi um instrumento maldoso do nazismo na sua ação nefasta contra o Brasil35. O autor não se limita a reproduzir as opiniões correntes na época e ainda repetidas na ensaística atual, mas procura dar um ar de consistência ao seu texto, remetendo em abundantes notas de rodapé a documentos do arquivo do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha em Bonn. Para comprovar a sua tese, apresenta o caso do integralista José Zamarin da Testa, do interior de São Paulo, que em 1935 se dirige ccedil embaixada alemã, dizendo-se autorizado por Plínio Salgado, chefe do integralismo, para solicitar ajuda para si mesmo para realizar uma viagem ccedil Alemanha e para o integralismo em geral. A partir da análise da documentação o autor conclui: "Sin embargo, un momento cumbre en que se hacen oficiales, de manera ultra-secreta, las relaciones entre la Acción Integralista y el régimen nazi, se da en 1935 cuando la legación alemana en Río envía al Ministerio de Relaciones Exteriores alemán un reporte favorable a la AIB recomendando el viaje a Alemania de un tal Dr. Zamarin, miembro prominente de la AIB, y sugiriendo apoyo material y moral a los integralistas" (pp. 14-15).

Na verdade o autor utiliza aqui fontes de arquivo realmente existentes, mas as utiliza seletivamente para dar ares de consistência científica á sua opinião preconcebida. Um documento conclusivo da embaixada alemã sobre o caso, que, se fosse arrolado, obrigaria o autor a chegar a uma conclusão diferente daquela a que chegou, não é referido36.

Não há como negar que no sul do Brasil o integralismo, de fato, teve mais adeptos nas regiões de colonização alemã (e sobretudo italiana) do que nas regiões de população majoritariamente de origem luso-brasileira. Esse sucesso, porém, pode ser plenamente explicado pelo contexto político regional e pela conseqÜente integração das populações de origem alemã (e italiana) no mesmo e pela maior complexidade social e política dessas regiões, permitindo uma maior distribuição do leque de posições políticas dentro do espectro político, enquanto o controle oligárquico nas demais regiões favorecia um maior monolitismo político. Além disso temos em Santa Catarina uma constelação política especial desde 1930 que vai explicar a maior adesão ao integralismo37.

A bibliografia aponta ainda para o fato de que o integralismo teria recebido dinheiro do fascismo italiano38 e certamente o teria recebido de bom grado do nazismo alemão, como mostra a tentativa do integralista Zamarin da Testa recém citado. O fato é que -a não ser que ainda se encontrem documentos que provem o contrário- as instãncias nazistas, no seu conjunto, nutriam menos entusiasmo pelo integralismo do que em geral se supõe. As razões que freiavam esse entusiasmo são basicamente duas: o integralismo, pela sua doutrina "nativista", era visto como perigo para a preservação da "germanidade" das populações de origem alemã no Brasil e as instãncias nazistas preocupadas com o incremento de um intercãmbio económico e conseqÜente relacionamento político crescente com o governo Vargas temiam que o envolvimento com um partido não-governamental seria perigoso.

Autores têm sugerido que o nazismo se interessava muito pelo integralismo e o tivesse fomentado. Assim Robert Levine em seu The Vargas Regime escreve que "Julius Streicher's Der StÜrmer praised Barroso's racist works, and he was well thought of throughout Germany"39. E, de fato, há indícios de simpatia pelo integralismo na Alemanha nazista. Na Zeitschrift fÜr Politik em seu número 24 de 1934, por exemplo, encontramos um artigo de Ubaldo Borborema sob o título "Brasilien and der Nationalsozialismus" (O Brasil e o nacional-socialismo), onde a tônica é a defesa do integralismo e sua proximidade com o nazismo (pp. 129-136). Quanto ao artigo na revista não foi possível determinar a importãncia que deva ser atribuída ao texto para uma avaliação das possíveis relações entre integralismo e nazismo, mas deve- se destacar que o mesmo aparece bem no início da atividade do integralismo, portanto, num momento em que na Alemanha nazista ainda não se tomara uma posição em relação ao partido fascista brasileiro. Mas no que tange ao jornal Der StÜrmer, especializado em anti-semitismo e no qual, segundo Levine, teriam sido feitos muitos elogios ao segundo homem da hierarquia integralista e mais destacado ideólogo do anti-semitismo dentro do partido, cabe destacar que um levantamento minucioso constatou que, de fato, há duas pequenas notas sobre o integralismo em dezembro de 1934 e em janeiro de 1935, isto é, num período em que a atividade do integralismo apenas estava iniciando. Da mesma forma que na Zeitschrift fÜr Politik, efetivamente transparece nesses textos de Der StÜrmer um certo interesse e uma certa simpatia pelos fascistas brasileiros. Com a expansão do integralismo e o posicionamento restritivo das principais instãncias alemãs o integralismo permanece, porém, totalmente ausente desse jornal entre 1935 e 1938, portanto, durante todo o período de sua expansão.

Encontram-se referências em outros jornais em datas posteriores a 1934, mas os pesquisadores parecem ter sido excessivamente rápidos em concluir que uma referência significa forçosamente simpatia, apoio e colaboração estreita. Quero dar um exemplo. Em 23 de dezembro de 1937 o semanário político Der Zeitspiegel, editado em Berlim, dedicou uma página e meia ao tema "Das neue Brasilien and der Integralismus" (O Brasil novo e o integralismo). Lendo apenas o título, tem-se aparentemente uma clara tendência do jornal em prestigiar o integralismo. A leitura do texto, porém, no mínimo nos obrigara a uma exegese que permite uma leitura diversificada. O texto nos diz que os integralistas apoiaram o golpe do Estado Novo de Vargas em novembro, apesar de que não foram o elemento decisivo de apoio e portanto do sucesso do golpe. O elemento decisivo para o sucesso do golpe foi o exército. A nova constituição outorgada por Vargas incorpora alguns elementos da doutrina integralista (corporativismo, forma autoritária de governo). Da doutrina integralista são destacados ainda o anticomunismo e a antimaçonaria. Uma leitura que se restringe a destacar esses elementos pode concluir que o artigo visa enaltecer o integralismo. Há, porém, outras informações no texto que também permitem uma leitura inversa. O jornal diz claramente que o maior perdedor do golpe de novembro foi o integralismo, pois só ele saiu prejudicado com as determinações do novo regime proibindo qualquer atividade partidária. "Não há dúvida de que essas determinações se voltam em primeira linha contra o integralismo". Além da comunicação aos leitores sobre a derrota do integralismo - demonstrando uma eficiente capacidade de análise, que a imprensa de outras partes do mundo não demonstrou-, há ainda outros elementos no texto que permitem concluir que o aparente destaque dado pelo jornal ao integralismo através do título e pelo espaço que lhe é dedicado não visava promover o integralismo nem solidarizar-se com ele, mas colocá-lo em dúvida. Ao referir-se ccedil doutrina do integralismo, diz que um dos objetivos do partido é "a fusão de todos os brasileiros, independente de cor, em um único povo. Quem nasceu em solo brasileiro deveria ser brasileiro e sentir-se como brasileiro pleno". Apesar de que o redator do texto não explicita o significado do destaque dado a esse ponto da doutrina integralista, não há dúvida de que os leitores alemães (nazistas ou não) que sabiam da existência de um considerável número de "irmãos de sangue" vivendo no Brasil, devem ter ficado no mínimo desconfiados em relação ao integralismo, pois aparece aqui uma referência clara ccedil longamente combatida tese do "melting pot", temida por todos aqueles que tinham algum interesse nos destinos dos "alemães no exterior" que vivam no Brasil40.

Não havia como negar que o integralismo -apesar de eventuais esforços em contrário- se enquadrava na tradição do "nativismo", que pregava o fim de qualquer preservação de identidade de grupos étnicos dentro do Brasil. Assim, apesar de que um estudo sistemático sobre a repercussão do integralismo na imprensa alemã ainda está por ser feito, deve-se ter o cuidado de ler criteriosamente as matérias e evitar conclusões apressadas a partir de uma simples referência.

Nem o Ministério das Relações Exteriores nem a Organização do Exterior do partido seguiam uma linha de colaboração e apoio ostensivo ao integralismo. Além dessas duas instãncias devem ser levadas em conta algumas outras, especialmente dedicadas aos "alemães no exterior". Destacam-se entre elas sobretudo o Deutsches Ausland-Institut (DAI) e o Volksbund fÜr das Deutschtum im Ausland (VDA). Apesar de que no DAI houvesse possivelmente algumas pessoas que defendessem uma certa aproximação com o integralismo41, a orientação dominante foi a de apresentá-lo como grande perigo para a "germanidade" no Brasil. Uma posição equivalente temos na segunda grande instituição que se ocupava com os "alemães no exterior", o VDA. Quero ilustrar com uma publicação endossada por ambas as instituições. Na edição de janeiro de 1937 da revista Der Auslanddeutsche42 há um artigo intitulado "Zur heutigen politischen Lage des Deutschtums in Brasilien" (A atual situação política dos alemães no Brasil). Nesse artigo se dedica espaço muito considerável ao integralismo. O autor, nesse particular, se concentra em especial no estado de Santa Catarina, onde o integralismo foi muito mais bem sucedido do que no Rio Grande do Sul. Destaca que o chefe integralista Plínio Salgado é um nortista que em seus discursos no sul se mostra conciliador, destacando que seu avô materno era um alemão, mas que ninguém deve iludir-se, pois a posição do integralismo sobre a fusão racial é clara e que na política efetiva dos integralistas nos municípios em que chegaram ao poder é claramente "nativista": "Isso mostra de forma inequívoca a forma de pensar do integralismo, que, ao menos nesse ponto, colide frontalmente com o nazismo" (p. 20). A conclusão do autor sobre esse tema é a seguinte:
"Os integralistas de descendência alemã da região de Blumenau marcham -e isso é decisivo do ponto de vista de uma política teuto-brasileira- sem qualquer garantia prévia nas fileiras dos camisas verdes ao lado de cidadãos racialmente bem diferentes. Entrementes, dois integralistas de sobrenome alemão sacrifi- caram na região de Blumenau suas vidas pelo movimento. Quais -assim deve-se perguntar com preocupação- são os beneficios que o martírio dessas duas vítimas traz para o teuto- brasileirismo? Os nativistas dos círculos liberais gritam `lincha', e `morra' contra o `hitlerismo disfarçado' em Blumenau, em parte por ignorãncia total da visão de mundo nacional- socialista, em parte por maldade intencional. Se o Brasil em futuro próximo se tornar integralista, então o teuto-brasileiris- mo, em função de sua desunião e divisão, corre o risco de afundar no `melting pot' brasileiro com um mínimo de pressão. Se, no entanto, a atual forma de governo, que se assemelha muito ccedil dos Estados Unidos, conseguir barrar o integralismo - ao mesmo tempo em que eventualmente se fale de simpatias para com ele-, então certos círculos liberais combaterão os teuto-brasileiros como traidores do Estado" (p. 21).
A qualidade da análise do autor pode ser comprovada pela correção da previsão feita. Uma das alternativas prognosticadas realmente aconteceu após o 10 de novembro de 1937: o integralismo é proibido, mesmo que simultaneamente lhe são feitos alguns elogios ou concessões através da inclusão de alguns de seus princípios na constituição ditatorial outorgada. Quanto aos efeitos maléficos da militãncia integralista sobre a população de origem alemã a profecia se cumpriu em sua plenitude.

Em estudos anteriores havia deixado de lado uma instituição que poderia complementar o quadro referente ao relacionamento ou ccedil posição do nazismo frente ao integralismo. Trata-se do Instituto Ibero-Americano em Berlim. Fora criado em 1930 com a função de dedicar-se ao estudo de Portugal, Espanha e os países de tradição ibérica na América. Seus objetivos declarados eram os de fomentar as relações culturais entre a Alemanha e os citados países. Após a ascensão dos nazistas ao poder o Instituto passou a ser presidido pelo general Wilhelm Faupel, um nazista notório43. Infelizmente - como destaca Oliver Gliech- o general Faupel queimou a documentação mais diretamente ligada a ele e supostamente mais comprometedora antes de suicidar-se em 1945.

Em tese a verificação do relacionamento ou da posição do Instituto frente ao integralismo é importante, pois, ao contrário do que acontecia com o DAI e o VDA, o mesmo não tinha vinculação expressa com o "germanismo". Isso significa que sua preocupação não se centrava na preservação da raça e da identidade dos alemães e descendentes nos países ibéricos, e portanto, uma eventual oposição ao integralismo por seu caráter "nativista" não deveria existir44.

Pela escassez da documentação encontrada as conclusões só podem ser provisórias45, mas tudo indica que o integralismo não ocupou grande espaço entre as preocupações do Instituto. Entre as lideranças integralistas Gustavo Barroso sempre foi considerado o mais germanófilo e pró-nazista, sobretudo em função de seu ferrenho anti-semitismo46. E não há dúvida de que Barroso em diversas oportunidades tentou aproximar-se do nazismo e do Instituto Ibero-Americano. Assim, uma carta de 19 de novembro de 1937 do Instituto para Barroso dá conta de que os livros anti- semitas de sua autoria enviados por ele ao Instituto chegaram a seu destino. A carta lembra que em 1 de novembro do mesmo ano fora enviada outra carta de agradecimentos por uma remessa anterior de livros. Isso demonstra que Barroso dava importãncia ao Instituto como potencial divulgador de seus livros e certamente denota sua tentativa de granjear as simpatias do nazismo47.

A referida carta informa a Barroso que seus livros deverão ser resenhados na revista Ibero-Amerikanisches Archiv, editada pelo Instituto. Fato é, porém, que tal resenha nunca foi publicada. A ausência de referências aos livros de Barroso na revista pode ter sido motivada por razões táticas, já que com a decretação do Estado Novo -que coincide com as datas das cartas- o integralismo se tornou perdedor e não convinha tocar nesse assunto para evitar influências negativas no relacionamento com o governo Vargas. Deve- se destacar, no entanto, que antes dessa data também nunca houvera referências ccedils obras de Barroso no Ibero-Amerikanisches Archiv.

Infelizmente a documentação preservada é muito lacunar para uma conclusão definitiva, mas há no mínimo mais um episódio envolvendo Barroso e o Instituto. Isso em 1940. Depois de 1938 e os problemas enfrentados com a atuação do partido nazista no Brasil o Instituto experimentou uma política de influenciação no Brasil através do convite a pessoas de destaque para visitarem a Alemanha, convites que muitas vezes eram formulados através de associações agregadas ao Instituto, como a Sociedade Teuto-Ibero-Americana e a Sociedade Médica Teuto-Ibero- Americana. Com essa tática se traziam políticos, médicos, arquitetos e outras pessoas consideradas portadoras de potencial para influenciar positivamente no relacionamento do Brasil com a Alemanha. Carta de Faupel de 27 de fevereiro de 1939, por exemplo, dá conta de que deve ser convidado para uma visita ccedil Alemanha o Dr. Saint Pastous, reitor da Universidade de Porto Alegre, cunhado de Góis Monteiro e muito amigo de Getúlio Vargas48. Dentro dessa política foram convidados muitos médicos brasileiros e num desses grupos encontrava-se Lutero Vargas, filho do presidente, que acabou permanecendo por mais tempo na Alemanha, casando com uma alemã49. No mesmo ano de 1939 Oswaldo Cordeiro de Farias, interventor no Rio Grande do Sul, também visitou a Alemanha.

Dentro dessa prática também foi formulado, em 1940, um convite para que Gustavo Barroso visitasse a Alemanha. Se a documentação -provavelmente abundante- sobre essa visita estivesse preservada, poderíamos eventualmente obter uma visão mais clara da opinião dominante no Instituto Ibero- Americano em relação ao integralismo, opinião que com certeza não era desimportante pela própria proximidade geográfica em relação ccedils grandes instãncias de decisão do nazismo.

Apesar da escassez da documentação pode-se arriscar algumas conclusões. Publicamente o Ibero-Amerikaniksches Archiv50 noticia a visita, destacando que Barroso permaneceu cinco semanas na Alemanha, que Faupel lhe ofereceu uma recepção em 21 de outubro no Hotel Adlon, onde estiveram presentes o embaixador Freitas Valle, o sub-secretário de Estado Woermann do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e outras autoridades. Por essa nota a visita de Barroso recebe um tratamento público mais ou menos equivalente ao que foi dado a outros visitantes ilustres. Podemos, no entanto, avançar algumas conclusões parciais a partir de uma carta não pública a respeito da visita. A carta é de 22 de outubro, escrita por Faupel e endereçada ao embaixador alemão no Brasil, PrÜfer51. Faupel lembra nessa carta que o convite a Barroso foi formulado em decorrência de uma sugestão feita pelo próprio embaixador em correspondência datada de 16 de maio de 1940. Feito o convite por parte do Instituto Ibero-Americano (melhor: pela Sociedade Teuto-Ibero-Americana), Barroso respondeu que antes de aceitar consultaria o governo brasileiro. Uma resposta só lhe teria sido dada em fins de setembro, viabilizando a sua chegada em 10 de outubro52. Há na carta duas observações que permitem algumas inferências. Em primeiro lugar, Faupel observa que Barroso lhe deu a impressão de ser uma pessoa "inteligente e objetiva" (klug and zielbewusst), é amigo do embaixador brasileiro. Isso sugere que Faupel não conhecia Barroso anteriormente, nem através de contatos escritos, pois o próprio Faupel nunca se havia lembrado de convidá- lo e só o fez por sugestão e lembrança da embaixada alemã do Rio de Janeiro. A segunda observação interessante da carta é a de que Barroso está sendo ciceroneado em sua visita por um "inteligente e confiável" texto-brasileiro. Apesar de não ser citado pelo nome, não há dúvida nenhuma de que se trata de Karl-Heinrich Hunsche.

Segundo me relatou Hunsche, ele recebeu no início da década de 1930 um "aceno" do Instituto para que fizesse um estudo sobre o integralismo. Esse aceno foi atendido e daí resultou sua tese de doutorado sobre o tema, publicada em 1938. Quem conhece o trabalho de Hunsche sabe que se trata do posicionamento de um germanista frente ao integralismo e Hunsche classifica Barroso com o mais típico e sincero representante do "nativismo" brasileiro presente na doutrina e na prática da Ação Integralista Brasileira. Barroso, por isso, é classificado dentre as lideranças integralistas como o mais perigoso para os interesses da preservação da identidade étnico-cultural dos texto-brasileiros53. Assim o ciceroneamento de Barroso foi feito por alguém que publicamente formulara as mais fortes críticas ao integralismo e em especial a Barroso. Infelizmente não conhecemos as informações que Hunsche possa ter transmitido ao Instituto a respeito de Barroso e sobretudo não sabemos o que Barroso possa ter conversado com Faupel, mas na documentação referente ao DAI e ao VDA em Koblenz há um longo parecer (11 páginas) sobre a visita de Barroso. O parecer é assinado por um Dr. Foerster, datado de Dresden em I1-13 de novembro de 1940, portanto, redigido antes de Barroso deixar o país, caso ele tenha chegado em 10 de outubro e permanecido cinco semanas, como informa a documentação. O parecer tem o título "Gedanken Über die Deutschlandreise von Gustavo Barroso, dem ilegalen IntegralistenfÜhrer in Brasilien" (Considerações sobre a viagem de Gustavo Barroso, o líder ilegal do integralismo no Brasil, para a Alemanha"54. Nesse texto se destaca enfaticamente a tradição "nativista" de Barroso, com referências a agressões explícitas ao "bloco germccedilnico meridional" em um passado não muito distante. Quando questionado sobre a posição do integralismo frente ccedil "minoria alemã" no Brasil, teria "transferido a resposta a essa pergunta para outros ombros". Ou seja, Barroso, mesmo em visita ccedil Alemanha a convite de uma instituição alemã, esquivou-se a responder afirmativamente que as populações de origem alemã no sul do Brasil poderiam continuar a cultivar suas tradições étnico-culturais sob um regime integralista. Por isso o parecer conclui: "Depois do que foi dito, a visita de Barroso não pode ter servido para aclarar a questão sobre o grupo étnico alemão"55.

Mesmo que esse parecer não se tenha originado no Instituto Ibero- Americano, é pouco provável que o Dr. Foerster, que o redigiu, não tenha colhido informações junto de todas as instituições pelas quais Barroso passou em sua visita -que aliás tinha começado pelo Instituto em Berlim. Além disso é sintomático que no texto Karl-Heinrich Hunsche, que trabalhava no Instituto56 e que ciceroneou Barroso, ao menos em sua estada em Berlim, seja explicitamente citado como grande conhecedor e crítico da posição do visitante. Dessa forma não há indícios também na documentação do Instituto Ibero-Americano de que lá se tenha festejado o integralismo brasileiro57.

Tudo isso desautoriza -ao menos até prova em contrário- as especulações de que o integralismo tenha constituído um elemento fundamental para a infiltração e expansão do nazismo no Brasil ou da política alemã de ampliar sua presença no país.

E evidente que os representantes do nazismo não encaravam o integralismo da mesma forma como encaravam o suposto ou o real comunismo, por exemplo. Imaginava-se que o integralismo tinha chances de chegar ao poder e por isso um documento da embaixada alemã do Rio de Janeiro datado de 1935 sugeria que fossem mantidos contatos a nível "social" com lideranças integralistas, para que não se estivesse sem relações com um eventual governo integralista que poderia vir a instalar-se no Brasil58. Além disso havia membros do partido nazista no Brasil que se aproximaram por conta própria de lideranças integralistas, para -segundo se justificavam- "trazer o integralismo para um bom caminho"59.

Convém repetir: não se trata de criticar aqueles autores - contemporccedilneos dos acontecimentos ou contemporccedilneos nossos- que a partir de uma postura ético-política condenam com veemência tanto nazismo quanto integralismo como forças diabólicas irmãs. Mas isso se pode fazer sem pesquisa histórica. Quem, porém, quiser argumentar a partir de uma pesquisa histórica poderá mostrar eventualmente que o nazismo serviu de inspiração -sob vários aspectos- para o integralismo, mas dificilmente conseguirá provar que o tenha fomentado e que a expansão da AIB -também entre a população de origem alemã no Brasil- possa ser explicada de forma convincente como fruto do apoio nazista.

Resta ainda uma última consideração. Ao contrário de alguns outros países latino-americanos, a influência alemã em seu conjunto dentro da elite política brasileira era bem menor do que se costuma imaginar, tendo inclusive sofrido reveses fortes justamente na década de 1930. Certamente foi pouco freqÜente em toda a história republicana do Brasil que algum presidente da República tenha sido visto rodeado por alguma eminência parda alemã em atos festivos, por exemplo. E se nas primeiras duas décadas do século XX encontramos um brasileiro de descendência alemã como Lauro MÜller exercendo um cargo de ministro e na década de 1920 um Victor Konder na mesma posição, os Konder perdem totalmente a sua influência no pós-1930. Em 1936 Victor Konder não consegue nem eleger-se vereador no município de Blumenau em Santa Catarina60. Da mesma forma Lindolfo Collor (originalmente Koehler), que lideranças teuto-brasileiras consideravam de sua confiança, entrou em conflito com Vargas, depois de ter exercido altos cargos imediatamente depois de 1930. Com isso também perdeu o seu poder de influência. Resta o famigerado chefe de polícia Felinto MÜller. O seu sobrenome e sua suposta germanofilia não nos devem enganar, porém. MÜller não era um brasileiro representativo das regiões de colonização alemã do sul do Brasil e suas relações afetivas com a cultura alemã e a Alemanha não possuíam raízes históricas. Felinto MÜller era pró-alemão mais ou menos como o poderoso Góis Monteiro. Agradava-lhe o regime de força implantado na Alemanha por Hitler, mas tinha muito pouca simpatia pela Alemanha em si e pelos alemães.61

A conclusão a que chego é a de que a opinião pública brasileira e internacional atribuiu ao Brasil e sobretudo aos alemães e descendentes no país um papel muito maior do que efetivamente exerceram na tentativa da Alemanha nazista de expandir sua influência na América Latina. E a historiografia ainda não fez uma revisão apropriada dessa visão. Claro que o estudo específico e isolado do Brasil nos coloca numa posição em que pode ser dificil evitar um certo subjetivismo na avaliação. Esse subjetivismo so poderia ser diminuído através de estudos comparados entre vários países latino-americanos. Entrementes temos estudos consistentes como os de Ronald Newton e de Holger Meding sobre a Argentina62 e também já foram produzidos alguns trabalhos sobre outros países63. Talvez já se poderia partir para o estudo comparado. Um início foi feito pela citada tese de JÜrgen MÜller, mas ela é muito específica sobre a atividade da Organização do Exterior do partido nazista. Caberia ampliar o espectro.

NOTAS
  • Grande parte das fontes utilizadas no presente texto foi levantada na Alemanha durante o primeiro semestre de 1995, graças a uma bolsa do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) do Brasil. BACK

  1. Gambini, Roberto: 0 duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo, Símbolo, 1977. BACK

  2. Moura, Gerson: Autonomia na dependência. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. Cf. também a controvérsia sobre o grau dessa autonomia em Hilton, Stanley: "Brazilian diplomacy and the Washington- Rio de Janeiro 'Axis' during the World War II era", The Hispanic American Historical Review, vol. 59, n. 2, 1979; McCann, Frank: "Critique of Stanley E. Hilton's Brazilian diplomacy...", ibid., vol. 59, n. 4, 1979. BACK

  3. Sobre o relacionamento do Brasil com as grandes potências cf., entre outros, Hilton, Stanley: 0 Brasil e as grandes potências. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977; Seitenfus, Ricardo Antônio da Silva: O Brasil de Getúlio Vargas e a formaFão dos blocos, 1930- 1942. Rio de Janeiro, Editora Nacional, 1985. BACK

  4. Sobre o Estado Novo cf. o arrolamento bibliográfico em Gertz, Renê E.: "Estado Novo: um inventário historiográfico", in Silva, José Luiz Werneck da (org.): 0 feixe e o prisma. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1991, pp. 111-131. BACK

  5. Veja, ano 28, n. 20, 17 de maio de 1995, pp. 60-67. BACK

  6. É Claro que autores anteriores haviam apontado para o fato de que a presença de um significativo contingente de alemães e descendentes no Brasil representou antes um problema do que uma ajuda para as relações Brasil-Alemanha. Cf. Harms-Baltzer, Kte: Die Nationalisierung der deutschen Einwanderer and ihrer Nachkommen in Brasilien als Problem der deutsch-brasilianischen Beziehungen 1930-1938. Berlim, Colloquium Verlarg, 1970. BACK

  7. Gertz, René E.: "Alemanha e alemães no Brasil: a ambivalência brasileira na década de 30", in Cervo, Amado Luiz & Doepcke, Wolfgang (orgs.): Relapões internacionais dos países americanos. Brasília, Linha Gráfica Editora, 1994, pp. 89-91. Em 1939 a revista Deutschtum im Ausland comentou o caso do general Meira de Vasconcellos, que falava alemão, era casado com uma alemã e fez parte de sua formação militar na Alemanha, mas foi um dos mais ferrenhos "nacionalizadores" da população de origem alemã em Santa Catarina (Deutschtum im Ausland, Stuttgart, vol. 22, n. 6, 1939, p. 416). BACK

  8. A palestra foi transcrita pelo Jornal do Estado, Porto Alegre, em 25 de abril de 1938. Utilizei a reprodução facsimilar que se encontra em Konrad, Gláucia Vieira Ramos: A política cultural do Estado Novo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Pontificia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1994 (dissertação de mestrado). BACK

  9. Érico Veríssimo naturalmente não utiliza essa expressão, mas ela tinha uma longa tradição no Rio Grande do Sul. Cf. Gertz, René E.: O perigo alemão. Porto Alegre, Editora da Universidade, 1991. BACK

  10. Cf. Gertz, René E.: O fascismo no sul do Brasil. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987, pp. 18- 20. BACK

  11. Sobre a ideologia do "branqueamento" pode-se consultar Skidmore, Thomas: Preto no branco. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976. BACK

  12. Bethlem, Hugo: O vale do Itajaí: jornadas de civismo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1939; Nogueira, Rui Alencar: Nacionalizafão do vale do Itajaí. Rio de Janeiro, Biblioteca Militar, 1947. BACK

  13. Borges, Stella Maris: Italianos: Porto Alegre e o trabalho. Porto Alegre, EST, 1993. BACK

  14. Gertz, René E. (ed.): Memórias de um imigrante anarquista (Friedrich Kniestedt). Porto Alegre, EST, 1989; Sangirardi Jr.: "Edgard Leuenroth: o gentleman anarquista", D.O. Leitura, São Paulo, n. 149, 13 de outubro de 1994, p. 16. BACK

  15. Gertz: O fascismo.... pp. 80 e segs. BACK

  16. Trabalhos mais recentes sobre a atividade do partido nazista no Brasil são -além do citado na nota seguinte- os de Bartelt, Dawid D.: Die Auslandsorganisation der NSDAP in Brasilien im Rahmen der deutsch-brasilianischen Beziehungen 1931 bis 1939. Berlim, Universidade Livre de Berlim, 1991 (dissertação de mestrado); Bartelt, Dawid: "`FÜnfte Kolonne' ohne Plan. Die Auslands organisation der NSDAP in Brasilien, 1931-1939", Ibero-Amerikanisches Archiv, Berlim, vol. 19, n. 1/2, 1993, pp. 3-35. BACK

  17. MÜller, JÜrgen: Nationalsozialismus in Lateinamerika. Die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien, Brasilien, Chile and Mexico, 1931-1945. Heidelberg, Universidade de Heidelberg, 1994 (tese de doutorado). BACK

  18. Baseio-me na listagem anexa a Carneiro, J. Fernando: Imigracão e colonizacão no Brasil. Rio de Janeiro, Faculdade Nacional de Filosofia, 1950. BACK

  19. Der Auslanddeutsche, Stuttgart, vol. 7, n. 5, 1924, p. 150. BACK

  20. Peschke, Rudolf: "Die Neudeutschen in Brasilien", Der Auslanddeutsche, Stuttgart, vol. 9, n. 5, 1926, p. 147. BACK

  21. Der Auslanddeutsche, Stuttgart, vol. 9, n. 14, 1926, p. 468. BACK

  22. Der Auslanddeutsche, Stuttgart, vol. 15, n. 13/14, 1932, p. 363. BACK

  23. Esse é o número máximo apresentado por MÜller, op. cit., p. 111. O autor estabelece como número real 2.990 (p. 187). BACK

  24. Sobre os pastores nazistas podem ser consultados Dreher, Martin Norberto: Igreja e germanidade. Porto Alegre, EST, 1984, pp. 129 e segs.; Prien, Hans-JÜrgen: "Die `deutsch- evangelische' Kirche in Brasilien im Spannungsbogen von nationaler Wende (1933) and KirchenkampP', Jahrbuch fÜr Geschichte von Staat, Wirtschaft and Gesellschaft Lateinamer- ikas, Colônia, n. 25, 1988, pp. 511-533; Prien, Hans-JÜrgen: Evangelische Kirchwerdung in Brasilien. Von den deutsch-evangelischen Einwanderungsgemeinden zur Evangelischen Kirche Lutherischen Bekenntnisses in Brasilien. GÜtersloh, GÜtersloher Verlagshaus Gerd Mohn, 1989. BACK

  25. Sobre o "germanismo" e o "texto-brasileirismo" em perspectiva histórica cf. Seyferth, Giralda: Nacionalismo e identidade étnica. Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1981. Um trabalho mais recente é o de Magalhães, Marionilde Dias Brepohl de: Alemanha, mãe pátria distante. utopia pangermanista no sul do Brasil. Campinas, UNICAMP, 1993 (tese de doutorado). BACK

  26. Hell, JÜrgen: "Das `sÜdbrasilianische Deutschland'. Der annexionistische Grundzug der Politik des deutschen Imperialismus in Lateinamerika, 1898 bis 1914", in Lateinamerika zwischen Emanzipation and Imperialismus. Berlim, Akademie Verlag, 1961. BACK

  27. A crítica mais antiga ccedils concepções dessa bibliografia estão em Jacobsen, Hans-Adolf: Nationalsozialistische Aussenpolitik, 1933- 1938. Frankfurt/M., Alfred Metzner Verlag, 1968; Pomerin, Reiner: Das Dritte Reich and Lateinamerika. DÜsseldorf, Droste Verlag, 1977. Uma crítica mais recente está em MÜller, JÜrgen: "Hitler, Lateinamerika and die Weltherrschaft", Ibero-Amerikanisches Archiv, Berlim, vol. 18, n. 1/2, 1992, pp. 67-101. BACK

  28. A resposta a essa pressuposição foi a campanha de "nacionalização" que atingiu em primeiro lugar o sistema de escolas particulares. A respeito cf. duas teses divergentes: Dalbey, Richard: The German private schools of southern Brazil during the Vargas years, 1930- 1945. Indiana, Universidade de Indiana, 1970; Paiva, César: Die deutschsprachigen Schulen in Rio Grande do Sul and die Nationalisierungspolitik. Hamburgo, Universidade de Hamburgo, 1984. Exemplos de bibliografia contemporccedilnea sobre o tema são: Souza, J.P. Coelho de: Denúncia (o nazismo nas escolas do Rio Grande). Porto Alegre. Editora Thurmann, 1941; [Farias, Oswaldo Cordeiro de]: NacionalizaFão (dois discursos). S. 1., s.e., [1941]. Sobre a ação "nacionali- zadora" do governo em geral, sobretudo do ponto de vista da legislação, cf. Cohen, Esther: O governo federal e o partido nazista no Brasil. Niterói, Universidade Federal Fluminense, 1988 (dissertação de mestrado). BACK

  29. Delegacia de Ordem Política e Social de Santa Catarina (ed.): O punhal nazista no corafão do Brasil. Florianópolis, Imprensa Oficial do Estado, 1944; Py, Aurélio da Silva: A quinta coluna no Brasil. Porto Alegre, Globo, 1942; Py, Aurélio da Silva: O nazismo no Rio Grande do Sul. (lo. e 2o. relatórios, sem indicações). BACK

  30. O texto da revista Veja (citado na nota 5) diz sobre as fotografias que, "se perderam com os anos o dom de provar os riscos políticos da contaminação nazista entre a colma alemã. continuam intatas como retrato único do Rio Grande do Sul na época. Os clubes alemães pavoneavam para as cccedilmeras sua fé hitlerista com insolência simplória de quem acreditava estar sob governo amigo do III Reich" (p. 66). A historiadora acadêmica Lúcia Lippi considerou as fotografias "incríveis" (p. 67). BACK

  31. Hilton, Stanley: Suástica sobre o Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977. BACK

  32. Hilton: Suástica..., pp. 81 e segs. BACK

  33. O livro clássico sobre o integralismo é Trindade, Hélgio: Integralismo. São Paulo, DIFEL, 1974. BACK

  34. Gertz: O fascismo..., pp. 172 e segs. BACK

  35. Contreras, Mário: "El Brasil como meta histórica de la Alemania nazi", in Perfil del Brasil contemporáneo. México, UNAM, 1987, pp. 9-19. BACK

  36. O episódio está descrito em Gertz: O fascismo.... pp. 135-136. BACK

  37. Ibid., pp. 158 e segs. BACK

  38. Trento, Angelo: "Relações entre fascismo e integralismo: o ponto-de-vista do Ministério de Negócios Estrangeiros Italiano", Ciência e Cultura, São Paulo (SBPC), vol. 34, n. 12, 1982; Trento, Angelo: Fascismo Italiano. São Paulo, Ática, 1986, pp. 78-88. Sobre os efeitos do fascismo nas regiões de colonização italiana no sul do Brasil, cf. Giron, Loraine Slomp: As sombras do Littorio. O fascismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Parlenda, 1994. Sobre o integralismo nas regiões de colonização italiana, cf. Brandalise, Carla: 0 fascismo na periferia latino-americana: o paradoxo da implantacão do integralismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1992 (dissertação de mestrado). BACK

  39. Levine, Robert: The Vargas Regime. New York, Columbia University Press, 1970, p. 98. BACK

  40. A eventuais textos vistos como de louvação ao integralismo aparecidos na imprensa alemã pode-se contrapor um número significativo de textos claramente críticos: Kahle, Maria: "Die integralistische Bewegung in Brasilien", Deutsche Arbeit, vol. 35, n. 33, 1935, pp. 125-129; Kahle, Maria: "Der brasilianische Integralismus", Weltpost, vol. 2, n. 42, 1935, p. 15; Kahle, Maria: "Integralismus - die brasilianische Erneuerungsbewegung", N.S.- Erzieher, vol. 4, n. 24, 1936, pp. 554-555; Lechler: "Der Integralismus in Brasilien: seine Einstellung zur Rassenfrage and zur Kirche", Der deutsche Aúswanderer, vol. 31, n. 1, 1935, pp. 3-9; Aldinger: "Der Integralismus in Brasilien and die DeutschbÜrtigen", Eiserne Blãtter, vol. 17, n. 50, 1935, pp. 562-566. BACK

  41. Isso é sugerido por algumas passagens de Ritter, Ernst: Das Deutsche Ausland-Institut in Stuttgart 1917-1945. Wiesbaden, Franz Steiner Verlag, 1976. BACK

  42. Der Auslanddeutsche, vol. 20, n. 1, 1937, pp. 14-21. BACK

  43. Ghech, Oliver C.: "Das Ibero-Amerikanische Institut (Berlín) in der NS-Zeit", Iberoamer- icana, Frankfurt/M, vol. 14, n. 1, 1990, pp. 5-16. Sobre a estada de Faupel na América Latina como instrutor militar antes de ser presidente do Instituto, cf. breve depoimento em Borcke, Kurt von: Deutsche unter fremden Fahnen. Berlim, Schlieffen Verlag, 1938, pp. 310-314. BACK

  44. O Instituto Ibero-Americano era consultado pelo partido nazista e por outras instccedilncias do governo em suas medidas referentes a assuntos atinentes ccedil América Latina. Assim, em 1936 o Instituto se pronunciou pela proibição e pelo recolhimento de um livro de Johannes Reinwaldt com o título Brasilien, porque ele teria efeitos negativos sobre as relações entre a Alemanha e o Brasil (Geheimes Staatsarchiv, Berlim, 1218/239). BACK

  45. A documentação remanescente do Instituto Ibero-Americano encontra-se no Geheimes Staatsarchiv em Berlim. BACK

  46. Maria Luíza Tucci Carneiro considera que a principal explicação para o anti-semitismo de Gustavo Barroso está no fato de que sua mãe era alemã (0 anti-semitismo na era Vargas. São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 356). Barroso nasceu em 1888 e sua mãe faleceu quando ele ainda era menino. Sobre o anti-semitismo de Barroso, cf. Cytrynowicz, Roney: Integralismo e anti- semitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 30. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1991 (dissertação de mestrado); Maio, Marcos Chor: Nem Rotschild nem Trotzky: o pensamento anti-semita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro, Imago, 1992. BACK

  47. Geheimes Staatsarchiv, Berlim, 1218/65. BACK

  48. Geheimes Staatsarchiv, Berlim, 1218/229. BACK

  49. Um relatório sobre a estada de Lutero Vargas na Alemanha, com data de 10 de maio de 1939, está em Geheimes Staatsarchiv, Berlim, I 218B/17. BACK

  50. Ibero-Amerikanisches Archiv, Berlim, vol. 14, 1940, p. 302. BACK

  51. Geheimes Staatsarchiv, Berlim, 1218/239. BACK

  52. Segundo a biografia oficial de Barroso, ele foi ccedil Alemanha em 1940 como "representante do Brasil no Congresso Ibero-Americano de Berlim". (Barroso, Gustavo: Brasil: colônia de banqueiros. Porto Alegre, Revisão Editora Ltda., 1989, p. 9). A documentação do Instituto Ibero- Americano nada informa a respeito. BACK

  53. Hunsche, Karl-Heinrich: Der brasilianische Integralismus. Stuttgart, Verlag von W. Kohlhammer, 1938. Resumo das posições de Hunsche sobre o integralismo nesse livro e em trabalhos menores está em Gertz: 0 fascismo..., pp. 149 e segs. BACK

  54. Bundesarchiv, Koblenz, R 57 alt/804. BACK

  55. Já em 1928 uma importante revista germanista da Alemanha se ocupara com as posições "nativistas" de Barroso, ao comentar uma nota da Deutsche Zeitung de São Paulo, através da qual se soubera que ele havia afirmado: "Não precisamos de estrangeiros que não querem assimilar-se e que em nossa terra só se preocupam com outras pátrias". (Der Auslanddeutsche, vol. 11, n. 6, 1928, p. 175). BACK

  56. Apesar de Hunsche não ocupar um cargo efetivo ("ordentliche Planstelle") no Instituto e ser apenas um funcionário auxiliar ("Hilfsarbeiter"), conforme diz um documento de 18 de outubro de 1939 (Geheimes Staatsarchiv, Berlim, 1218/242), ele manteve ligações efetivas e duradouras com o mesmo. Em 24 de março de 1944 ainda era ouvido sobre as razões da entrada do Brasil na guerra, pronunciando uma palestra sobre "Brasiliens Weg in den Krieg and die US-Hõrigkeit" (0 caminho do Brasil para a guerra e a submissão aos EUA). (Ibero- Amerikanisches Archiv, Berlim, vol. 18, 1944, p. 61). BACK

  57. Parte da documentação referente ccedil Sociedade Teuto-Ibero-Americana (Deutsch-Ibero- Amerikanische Gesellschaft) -de quem partiu o convite oficial a Barroso- está no Bundesarchiv de Koblenz (R 641) e não foi consultada. Mas é pouco provável que contenha material que nos obrigaria a conclusões diferentes. BACK

  58. Relatório do embaixador Schmidt-Elskop de 6 de junho de 1935 (Arquivo do Ministério das Relações Exteriores em Bonn, Abt. III, Pol. 5/Brasilien, Bd. 8). BACK

  59. É o caso de Herbert KÜnhe (Rio de Janeiro). Cf. cartas de KÜhne de 1, 7, 29 de abril, 9 de novembro de 1936 no Bundesarchiv em Koblenz, NS 42/6; NS 42/23. BACK

  60. Reis, Antônio Carlos Konder: "Victor Konder. Pequena história de uma grande vida", in Centenário de Blumenau. Blumenau, s.e., 1950. BACK

  61. Pessimismo em relação ccedil importccedilncia dos "alemães" no Brasil pode ser encontrada com freqÜência entre autores alemães (da Alemanha). Frãger, Paul: "Die seelische Haltung des Deutschbrasilianers", Deutsche Arbeit, Berlim, vol. 34, n. 7, 1934, pp. 337-344; Endress, Siegfried: "Das Deutschtum in Brasilien", Deutschtum im Ausland/Deutsche in Cbersee, Stuttgart, vol. 21, n. 8, 1938, pp. 506-510; Harguth, Gerhard: "Vom Wesen and Weg des Deutschtums in Brasilien", Zeitschrift ficcedilr Geopolitik, Berlim, vol. 21, n. 2, 1944, pp. 65-69. BACK

  62. Newton, Ronald C.: The `Nazi Menace' in Argentina, 1931-1947. Stanford, Stanford University Press, 1992; Meding, Holger M.: Flucht vor Ntirnbergccedil Deutsche and õsterreichische Einwanderung in Argentinien 1945-1955. Colônia, Bõhlau Verlag, 1992. BACK

  63. Volland, Maus: Das Dritte Reich and Mexico. Frankfurt/M, Peter Lang, 1976; Floto, Jobst H.: Die Beziehungen Deutschlands zu Venezuela 1933 bis 1958. Frankfurt/M, Peter Lang, 1991; Galvis, Silvia & Donadio, Alberto: Columbia nazi, 1939-1945. Bogotá, Planeta, 1986; Seiferheld, Alfredo M.: Nazismo y fascismo en el Paraguay. Asunción, Editorial Histórica, 1985, 1986 (2 vols.). BACK